As Crianças — Gabriela Herman
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Zach Wahls — Em 2011, foi proposta uma emenda à Constituição do estado de Iowa, que reverteria a decisão da Suprema Corte que legalizou o casamento igualitário em nosso estado. Por isso, depus sobre como foi minha vida sendo criado por mães lésbicas e sobre minha irmã mais nova e o cachorro maravilhoso dela. Falei sobre o martírio que a gente aturou, mas que todas as famílias enfrentam também.

Fato é que o maior problema na minha vida não era a orientação sexual das minhas mães, mas a esclerose múltipla da Terry, que é minha mãe biológica. Eu fui concebido por meio de inseminação artificial de um doador anônimo do banco de esperma. Eu acho que isso só mostra que há muita diversidade dentro das nossas próprias famílias. Assim como há um monte de diversidade em qualquer família de pais heterossexuais.

A palavra-chave para descrever a nossa família não é LGBT, é família mesmo. Eu não fico alardeando por aí quem minhas mães ou minha família são. Realmente não é tão relevante dizer que minhas mães são um casal de lésbicas do que dizer que elas são fãs de carros ou que trabalham na assistência médica. Essas duas informação são tão relevantes pra definir minhas mães quanto o fato de elas serem lésbicas.

Talvez até um pouco mais. Digamos, tem um monte de coisa que você pode discorrer sobre um casal que trabalha com medicina do que um casal lésbico. A sua orientação sexual não é bom – quer dizer, é parte de quem você é – mas não é especificamente bom pra definir quem é você.

Quando eu era pequeno, nunca foi uma coisa que eu tivesse que esconder. Sempre fui verdadeiro com relação a isso simplesmente porque eu tinha os meus amigos. Todos estavam de boa com minhas mães lésbicas. Eles não se importavam. Eu não tinha nada a esconder.

Agora, quando eu me mudei para Iowa, com nove anos, tudo virou uma faca de dois gumes. De um lado, a cidade é muito menos careta do que a cidade onde eu morava antes. A Universidade de Iowa, que fica na cidade, tem uma comunidade universitária muito grande. Tem muita gente de cabeça aberta por lá. Estávamos morando em uma cidade mais progressista, assim, relativamente falando.

Eu estava sem amigos. Eu tive que passar por todo o processo de fazer novas amizades de novo. E quando você está na terceira ou quarta série, não é mais tão tranquilo ser diferente. Foi muito difícil fazer parte dessa nova realidade. Meu melhor amigo, na verdade, acabou sendo um garoto que se mudou, na quinta série, no ano seguinte. A maioria dos amigos que eu tive na quarta série foram crianças que também haviam se mudado para a cidade.

Foi difícil, mas a questão não era minhas mães lésbicas. Se eu tivesse crescido naquela cidade, com aqueles amigos desde pequeno, não teria tido problema nenhum. Mas era essa dose dupla: você não é apenas o garoto novo, mas você é o garoto novo com duas mães. Aí tudo virou um problema. Eu aguentei umas coisas, ser xingado e tal, por não ter um pai, ou por ter mães lésbicas.

Quando eu entrei no ginásio, onde todo mundo precisa fazer amigos de novo, você aperta o botão do reset. Mais uma vez, isso deixou de ser um problema. Todo mundo estava tentando fazer amizades ou tipo isso e eu acabei me juntando com uma turma que ficou comigo até boa parte do ensino médio.

Eu nunca tinha pensado em ficar sozinho. Eu nunca pensei que eu era a única criança que tinha duas mães. Em primeiro lugar, eu sabia que havia outras crianças assim, e segundo, desde pequeno, minha mãe me dizia que existem algumas pessoas que têm duas mães, algumas têm dois pais, algumas têm uma mãe e um pai, outras só a mãe ou só o pai.

Existem mil formas de família. Não é porque a nossa família é assim, que outras formas de família não são válidas, que não valem a pena você conhecer. Eu sempre fui muito respeitoso. Tenha respeito pelos outros se você quiser ser tratado com respeito. É dando que se recebe. E eu sou muito grato por isso, por ter essa consciência.

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Zach Jones — Minha mãe biológica é vietnamita e tinha 16 anos quando eu nasci. Meu pai biológico é negro, espanhol e tinha 17 anos. Duas semanas depois de nascer, eu fui adotado. Por duas mães. Barbara é enfermeira. Ela é “mama” e Kim é “mamãe”. Todo mundo na minha família é adotado. Na verdade, eu nem conheço minha família biológica.

Ao longo da minha infância, do maternal à oitava série, eu frequentei principalmente escolas de pessoas brancas. É como uma escola de artes cênicas, uma escola artística. Eu tocava violino e cantava em corais.

Era uma escola muito, digamos assim, progressista, hippie. A primeira vez que eu tive um problema real por ter duas mães foi na terceira série, porque antes disso, todo mundo dizia: “nossa, o Zach é tão sortudo por ter duas mães. Eu tenho inveja.” Eu acho que pra crianças pequenas, o conceito de lésbica ou gay é indiferente. Sinceramente, eu sinto que, às vezes, pais adotivos, ou mesmo pais doadores de esperma ou pais biológicos, quando criam crianças pequenas e se assumem como lésbicas, gays, transexuais etc., não é um problema. Eu acho que os pais vão se preocupar muito pelas suas crianças. Eles têm medo do que o mundo tem para oferecer porque existe muito julgamento, essas coisas.

Meu primo dizia: “Mãe, por que eu não posso ter duas mães? Isso não é justo.” Era como um privilégio, ter duas mães. Era bem interessante. Isso é bem diferente de outras experiências, quando as pessoas vão crescendo. Eu acho que quando as crianças são pequenas, é assim. Já na terceira série, o problema apareceu. Essa menina nova entrou na classe e ela não entendia. É quando a gente começa a se dar conta do que significa mamãe e papai, separação de gênero, doença que passam de meninas para meninos ou coisas assim.

Eu me lembro que essa foi a primeira vez que eu realmente tive que sentar com alguém e explicar. Foi a primeira vez que eu tive que pensar: “nossa, duas mães. Eu tenho duas mães. Como eu explico para alguém que não entende e que é ignorante no assunto?”

Mesmo quando eu tinha essa idade, eu percebo que eu podia compreender como as pessoas eram ignorantes com o fato de ter duas mães e toda a situação. Eu lembro que as pessoas costumavam perguntar: “Por que você é negro e elas são brancas?” ou “Por que você é asiático?”. Eu respondia: “Sou adotado.”

Para muitas crianças, para o que eles entendiam de adoção, isso era o suficiente por um bom tempo.

Eu sempre fui bastante confiante por ter duas mães. Ficou um pouco mais difícil, eu diria, provavelmente como na maioria das histórias, por volta do ensino médio e tal. Mas eu tive menos problemas com minhas duas mães do que tive com a procura do meu lugar racial e étnico, principalmente. Como estadunidenses, nós somos bem rápidos em colocar pessoas em caixinhas e julgar, seja por ter duas mães, seja por sua raça/etnia. Eu sou considerado um homem da comunidade nativa americana, mesmo que eu não seja.

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Moshe — Fui adotado quando era um bebê. Eu acho que fui a primeira adoção por lésbicas do Texas, ou algo do tipo. Eu diria que minha vida com elas é normal. Quando tinha doze anos de idade, uma das minhas mães ficou doente, teve câncer e morreu. Depois disso, a outra arrumou uma nova parceira. Não são casadas, mas moram juntas. Estão juntas há muito tempo, desde 2003 ou 2002.

Eu tenho um irmão que é três anos mais novo, que também é adotado. Tanto eu quanto meu irmão somos negros. Nós não somos parecidos e eu sempre percebi isso. Eu lembro bem desde muito cedo, provavelmente era na primeira série ou algo do tipo, de sempre me fazerem perguntas. “Por que vocês têm duas mães? Isso é estranho. Por que vocês são tão diferentes?” Todo mundo era tão curioso e eu estava superciente disso desde cedo.

É por isso que eu disse que me livrar da temática da escola foi provavelmente o que me trouxe aqui. É minha consciência de ser diferente e de ter um tipo diferente de família, por causa de questões envolvendo a escola e coisas como bullying, sofrer provocações. Mas as provocações nunca me deixaram envergonhado, nem nada disso. Eu me lembro que simplesmente podia voltar pra casa e dizer: “Foi isso que aconteceu”. Minha mãe, basicamente, só me diria como explicar: “Essa é a nossa família. Ela é assim”. Tudo mais parecia muito sem importância, idiota ou apenas ridículo, que eles pudessem tirar um sarro de mim. Nunca me envergonhei disso. Nunca passei por uma fase em que tentasse esconder essas coisas. Eu definitivamente passei por uma fase em que me questionei sobre minha própria identidade em termos de “bem, o que isso significa? O que é isso então?” Me lembro de ficar confuso sobre o lance todo da adoção e sobre parecer diferente. “Vocês são minha verdadeira família? O que é isso?” Eu e minha mãe sempre fomos superapegados.

As duas e nós dois, os meninos, somos superapegados. Quando minha mãe Harriet morreu, eu e minha outra mãe nos tornamos ainda mais apegados. Tem toda aquela fase de jovem adolescente em que eu a “odiava”, falando em termos mais delicados. Mas depois disso, voltei ao normal. Agora, ela simplesmente é como se fosse um refúgio pra mim. Ela está sempre ali pra mim e eu a amo muito. Pra falar a verdade, no começo, eu não gostava mesmo da parceira dela. Mas com o passar dos anos, me acostumei com ela. Elas fazem uma à outra feliz e isso é muito encantador. Fico feliz porque ela está feliz. Com certeza, eu conheci outras cinco famílias próximas a mim que eram famílias LGBT. Sempre soube que não estava sozinho, vindo desse tipo de família. Mas, na verdade, isso não queria dizer que não me sentisse sozinho na escola, porque essas crianças de famílias como a minha não estavam na minha sala ou por perto. O mero fato de estar consciente de algo não significa que você ainda não possa se sentir muito mal quando é provocado.

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Luke — Meu nome é Lukas e eu tenho 31 anos.  Sobre a minha família, minha mãe é gay. Ela se assumiu quando eu tinha 15. Ela tinha cinco filhos: meu irmão mais velho, eu, meu irmão gêmeo, meu irmão mais novo e minha irmã mais nova. Meu pai só tem meu irmão gêmeo e eu. Então são três pais diferentes, cinco crianças, uma mãe. Eles se divorciaram quando nós tínhamos dois anos.

Minha mãe se casou de novo quando nós tínhamos por volta de 7 ou 8 anos. Eles tinham meu irmão menor e minha irmã, e minha mãe se divorciou dele quando nós devíamos ter 12 ou 13. Minha mãe era viciada. Era enfermeira e estava lidando com drogas no trabalho e ela tinha que se manter sóbria. Então, teve um período em que eu não estava com ela e daí, por volta dos 14 ou 15, eu voltei a ficar com ela. Daí, uns meses depois, ela se assumiu pra mim.

Meu irmão gêmeo e eu ficamos com meu pai por volta de um ano e meio, dois anos. No período em que minha mãe se organizou, ficou sóbria, voltou para o trabalho e começou a juntas os pedaços da sua vida. Nós estávamos com ela apenas em fins de semana alternados, então nós não tínhamos muito tempo com ela. Mas, pelo menos, estávamos com ela de novo. E o papai estava ainda presente, estávamos com ele a maior parte do tempo.

Essa foi uma daquelas situações específicas em que eu sabia o que ela ia me contar antes que ela me dissesse. Ela me levou para o quarto dela e disse: “Eu tenho algo pra te contar” e eu disse: “eu sei o que é”. Não é como se fosse algo incrivelmente profético ou intuitivo porque havia sua primeira namorada, Ruth, que estava pela casa com frequência. Ela foi apresentada como “sua amiga, Ruth”. Mas Ruth era bem caminhoneira, consertou o carro dela, então eu meio que saquei - mesmo que na cidade, naquela época, não houvesse pessoas gays. A gente não via pessoas gays. Claro que nós sabíamos o que uma pessoa gay era e o que isso significava, mas nós nunca tínhamos visto alguém que era gay. Ainda assim, acho que teve esse entendimento intuitivo: algo estava acontecendo e a minha mãe não estava sendo sincera sobre o assunto.

Eu sei que foi bem fácil pra mim porque eu fui criado de maneira a aceitar. Eu fui criado pra aceitar todas as pessoas e, mais do que isso, ela é minha mãe e isso foi fácil. Eu acho que foi meio estranho, sabe, foi incomum, mas não foi realmente difícil. Não foi difícil para mim porque minha mãe não era presente na minha escola e nem na minha vida social.

Eu não tinha muitos amigos frequentando a casa da minha mãe, mas um amigo mais próximo, Jonathan, frequentava. A gente sempre saía, ia para festas e eu me lembro que por um tempo, por volta de seis meses, ele não sabia da minha mãe porque eu não contei pra ele que ela era gay. Eu lembro que ele achava que Ruth era só uma amiga próxima que sempre estava lá também. Nós ficávamos vendo TV juntos e eu lembro que foi a primeira vez que minha mãe e Ruth meio que se aninharam no sofá ou no chão, não sei, e o Jonathan estava lá. Eu me lembro que fiquei pensando, levemente preocupado. Eu não estava chateado, não estava bravo ou envergonhado, mas era mais sobre ele perceber que ela era gay sem que eu contasse antes.

Estava tão estranho que eu simplesmente levantei e saí, fui pra fora da casa e caminhei até a rua, até que ele veio atrás uns minutos depois. Você tem que conhecê-lo, mas ele estava meio louco. Parecia um gorila. Ele veio até mim e disse: “cara, acho que sua mãe é gay.” Até hoje eu me sinto tocado por isso, quando eu penso que mesmo que ele seja bem difícil – eu adoraria dar uma entrevista sobre ele algum dia – ele foi completamente compreensivo. Essa foi a única conversa que tivemos sobre isso. Ficou tudo normal depois disso.

Eu não me lembro de contar nada. Talvez para algumas pessoas, mas eu acho que mesmo no ensino médio não rolava muita abertura sobre a minha vida. Os meus amigos mais próximos sabiam porque eles frequentavam a minha casa. É engraçado como poucos lembram de verdade do que aconteceu dez, quinze anos atrás. Eu acho que é na faculdade e depois, na vida, sabe, que você aprende a ser mais aberto sobre quem você é e você encontra pessoas que querem saber o que acontece na sua vida, então acaba vindo à tona.

Mas antes, isso simplesmente não aparecia. Então, não havia vergonha. Era como se eu tivesse enterrado ou reprimido alguma coisa. Também não havia qualquer impulso pra que eu dissesse alguma coisa. Era assim.

Eu tinha um estranho mecanismo de repressão em mim. Tantas coisas simplesmente aconteceram na minha vida: “Ah, a mamãe foi pega no trabalho roubando drogas e nós não vamos vê-la por um ano e meio”. Desde então, não houve muita conversa sobre isso. É tudo que nós conseguimos lembrar por um bom tempo. Hoje em dia, quando a gente conversa sobre o assunto, a namorada atual da minha mãe, Mitsy, meu irmão mais novo e minha irmã ou meu irmão mais velho, fica uma certa tensão. Eles estão sempre resmungando sobre ela e eu estou sempre rindo porque eu realmente gosto da Mitsy. Acho que eles estão só sendo crianças.

De novo, conforme vamos envelhecendo, os relacionamentos se aprofundam e se desenvolvem. Eu conheço minha mãe bem melhor do que a conhecia naquela época. Antes, eu sempre adorava estar na sua casa. Mas isso era um relacionamento infantil. Era simples na minha cabeça. Eu não tinha muita noção do que estava acontecendo. Mas hoje, estou bem próximo dela. Sei que ela é uma mulher maravilhosa, cheia de alegria de viver e de inspiração. Ela é, pela falta de uma metáfora melhor, uma rocha na família. Eu me sinto sortudo de tê-la, muito sortudo de tê-la.

Eu fiz amizade com várias pessoas gays na faculdade. Não sei se foi o conforto em relação à minha mãe ou outra coisa. Mas durante um bom tempo esse foi meu mundo, sair com mulheres lésbicas, e elas sabem como aproveitar uma festa.

Eu era instrutor em um acampamento e o pai de um dos que estavam acampando era tipo um juiz federal. Eu não sei se ele era gay, mas ele parecia estar dando em cima de mim. Ele me deu seu cartão e esse foi meu primeiro encontro com alguém que tinha um pai gay.

O fato da minha mãe ser gay era muito aceitável pra mim e nunca havia problema. Graças a Deus que ela não experimentou nada problemático onde ela mora. Mas assim, eu não tenho muito o espírito ativista, algo que eu, às vezes, espero que mude.

Se a minha mãe estivesse numa situação pior, se fosse mais difícil ser gay do que de fato é pra ela, então eu provavelmente seria pessoalmente mais determinado em lutar pelos seus direitos. Mas ela está bem feliz, eu acho, e ela definitivamente tem uma inclinação muito mais liberal por questões como essa.

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Kerry — Eu fui criada como cristã evangélica, bastante fervorosa, e fui educada em casa. Era um ambiente muito isolado que se formava entre minha educação, minha igreja e minha família, que eram praticamente a mesma coisa. Então, quando eu tinha mais ou menos onze anos, minha mãe se assumiu. Eu não tinha a mínima ideia do que aquilo significava. Eu não sabia nem o que era sexo ou qualquer coisa relacionada a isso. Acho que alguém disse: “Sua mãe é gay”. Eu lia muito, então eu pensava que era a conotação antiga da palavra gay, que significava “feliz” e tudo mais. Eu simplesmente não tinha nenhuma referência. Eu precisei mesmo de um certo esforço pra imaginar o que aquilo significava.

Eu realmente não me lembro dela falando comigo. Me lembro de uma conversa entre meu pai, meu irmão e eu no carro. Ele estava dizendo, basicamente, que a mãe está tomando uma decisão ruim, fazendo algo errado. Eu não me lembro de ele ter, de fato, explicado o porquê, mas eu também sei que ele estava enfrentando várias coisas na época, então ele deve ter passado por um sufoco só de tocar no assunto.

Me lembro de uma conversa com a minha mãe, em que ela estava falando sobre como ela gostaria de casar com outra mulher. Quando eu era bem pequena, queria casar com minha melhor amiga, então disse algo como “oh, é tipo eu e a Sara?”. Ela respondeu que não. Eu me lembro daquele momento. Fora isso, era só mesmo algo que eu ia descobrindo pouco a pouco. Levou um tempo pra eu entender o que era aquilo.

Na escola dominical, estavam começando a ensinar que era errado ser gay, mas ainda assim demorou pra eu perceber que estavam falando da mesma coisa que a minha mãe. Sei que teve uma época em que eu entendi que minha mãe era gay, estava se assumindo e eu entendi que as pessoas da escola dominical estavam falando sobre essas aberrações que viam no shopping ou sei lá onde, mas não compreendia que elas estavam falando de uma mesma cultura.

Eu me lembro de um momento em que liguei os pontos e percebi que provavelmente deveria dizer algo na escola dominical pra defender minha mãe. Também, levou um bom tempo pra criar coragem de fazer isso. Foi um processo bem longo. Eu imagino que provavelmente disse algo na linha de querer salvar minha mãe de sua decisão e talvez de pedir ajuda. Sim. Só sei que muitas pessoas na igreja estavam me dizendo que eu tinha que salvar minha mãe. Mas também levou um tempão pra perceber do que eles queriam que eu a salvasse. Descobrir que a minha mãe estava se assumindo, o que “se assumir” significava e como outras pessoas viam isso foi um processo que deve ter levado uns dois anos, que coincidiu com o tempo que durou o processo de divórcio.

Fui educada em casa até a sexta série, depois entrei numa escola pública quando tinha doze anos. Daí, fui alertada pela minha igreja de que era provável que todos zombassem de mim, então fiquei bem assustada. Mas isso não aconteceu de forma alguma. Muitas pessoas não sabiam da história no começo. Então, eu acho que me abri pros meus amigos sobre minha mãe depois do meu primeiro ano na escola. Eles não achavam que isso era um grande problema de forma nenhuma, o que foi um alívio enorme pra mim.

Minha mãe e eu éramos muito, muito apegadas quando eu era pequena porque ela me educava em casa. Eu não acho que era uma relação típica entre mãe e filha porque estava sempre perto dela, todos os segundos, todos os dias. Ela foi minha professora primária, além de minha mãe.

Por causa disso, nossa relação sempre foi complicada. Nós, definitivamente, passamos por anos muito difíceis enquanto eu estava no ensino médio. Muito disso se devia ao fato de que eu achava que tinha que salvá-la. E muito também se devia ao fato de que ela estava passando por todas aquelas mudanças, percebendo tudo o que tinha reprimido nela mesma e ainda estava tentando descobrir. Acho que ela estava tentando descobrir qual era o lugar dela no mundo enquanto mulher homossexual e qual o lugar dela enquanto mãe e mãe homossexual, tudo ao mesmo tempo.

Ela tinha acabado de se divorciar do meu pai, então estava passando por aquilo sozinha. Ela estava tentando descobrir que tipo de mulher queria na vida dela e era algo difícil para meu irmão e eu. E ela estava se estressando muito também, então não éramos a mais tranquila das famílias do mundo o tempo todo.

Não sei. Nós passamos por muitas mudanças e parecia que as suportávamos muito bem. Pra mim e pro meu irmão, nós somos as únicas pessoas da família que têm a mesma família. Por causa disso, somos muito próximos. Nós podemos conversar sobre dramas familiares entre a gente de um jeito que não acho que nenhum do dois conseguiria falar com qualquer outra pessoa da nossa família, porque você tem que lembrar do lado de quem todos ficaram depois da mudança.

Meu pai e minhas duas mães vieram pra minha formatura da faculdade. Eu acho que essa foi uma das primeiras vezes que eu tive que interagir com todos os três no mesmo ambiente sem que fosse algo, por algum motivo, obrigatório. Foi bem legal. Jantamos juntos algumas vezes e deu tudo certo.

Eu era uma cristã evangélica muito, muito fervorosa quando era mais nova. Levou um tempão pra que eu conseguisse conciliar as duas coisas porque eu queria aceitar minha mãe na comunidade , mas também sentia muito que precisava salvá-la. Acho que passei uns cinco ou seis anos realmente levando uma vida dupla. Eu ia pra aula e era, tipo, “sou muito ativista. Estou completamente bem com isso.” Mas, então, eu ia a um grupo de jovens da igreja me retratar e agia como “eu preciso salvar minha mãe”. Tive muitos altos e baixos antes de encontrar um meio-termo.

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John — Meus pais se conheceram em um grupo da igreja. Quer dizer: minha mãe e meu pai. É melhor começar assim, já que meu pai se assumiu quando eu tinha dois anos e meio, pelo menos para a minha mãe. Isso acabou com o casamento, quando eu tinha uns quatro anos, mais ou menos. Minha mãe e eu nos mudamos para outro estado, mas eu voltava todas as férias. Ele começou a namorar o Davis quando eu tinha cinco ou seis anos e, desde então, o Davis é meu padrasto. Eu sempre fui muito próximo dos dois e da minha mãe.

A primeira vez em que se falou disso foi quando minha mãe comprou o livro “O colega de quarto do meu pai”. Estava eu sentado no carro, eu tinha seis, nove anos, algo assim, e ela sai da livraria, totalmente envergonhada, segurando aquela sacola de papel bem apertada. Eu folheio o livro e ela pergunta: “Você sabe por que estou te dando isso?” Eu respondo: “Sim, meu pai é gay”. Ela pergunta: “Como você sabe disso?”. Eu não tinha uma resposta na época, eu realmente não me lembro de ter dito nada. Ou eu tinha me dado conta sozinho ou eu não tinha uma palavra para isso. Então, o livro me deu a palavra, não sei. Mas essa foi a primeira vez que se falou disso, e, aparentemente, eu já sabia.

Então, quando eu tinha por volta de 10 anos, a gente estava no meio de uma viagem longa para visitar parentes do meu pai, quando o assunto apareceu: “Você sabia que eu sou gay?”. Naquela altura, já era muito óbvio. Não era de jeito nenhum uma surpresa para mim, nem seria razoável imaginar que seria uma surpresa para mim. Foi só um “sim”, e eles: “Você tem alguma pergunta?” e eu disse que não. Foi isso. Então, voltamos para algo muito parecido com pai e filho. Na caminhonete dirigindo, bem másculo, conversa breve.

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Jamie Larson — Eu sou a Jamie Larson e tenho 23 anos. Sou uma COLAGEr ( pessoa que possui mães/pais LGBTs.) de segunda geração, o que significa que eu tenho uma mãe lésbica e eu também me identifico como queer.

Fui criada pela minha mãe e por suas diferentes parceiras ao longo dos anos, e fui concebida por meio de inseminação artificial de um doador anônimo, que eu ainda não conheço. Muitas das parceiras que ela teve e muitas de suas amigas estiveram presentes na minha vida de uma tal forma que eu sinto que fui criada por várias mulheres diferentes. Tinha a minha mãe e depois sua primeira namorada, com quem ela começou a sair assim que terminou o colegial. Aquela mulher e sua parceira também eram como mães pra mim durante toda minha primeira infância. Elas ajudaram a me criar. Elas não viviam com a gente, mas estavam sempre por perto. Eu as via, pelo menos, uma vez por semana. Nós sempre passávamos as férias e os feriados juntas.

Minha mãe diz que teve algumas conversas importantes comigo quando eu tinha mais ou menos dez anos. Eu reagia, tipo: “Oh, peraí, você é lésbica? O quê?” Naquela idade, havia pessoas na escola me dizendo que aquilo era uma coisa ruim. Eu estava me tocando de que todas essas pessoas na minha vida eram essa “coisa ruim”. Ela insiste que essa conversa aconteceu, ela me conta em detalhes, disse que eu fiquei nervosa e estava chateada. Eu não me lembro de jeito nenhum, e olha que eu me lembro de coisas que aconteceram quando eu era bem pequena. Tenho uma memória muito boa e não guardo nenhuma recordação de nada disso. Eu não sei. Talvez tenha tido um bloqueio.

Me lembro que até na pré-escola eu contava pras crianças que não tinha um pai. Todo mundo me perguntava: “Cadê seu pai? Por que você não tem um pai?” E eu respondia: “Bom, um médico ajudou minha mamãe a me gerar e eu não tenho um pai.” “Hum, você precisa ter um pai.” “Eu não tenho”. Eu realmente tive uma briga com uma professora substituta da creche que teimou que eu deveria ter um pai, porque todxs têm um pai. Eu disse, irritada: “Não, eu não tenho um pai…” Nós estávamos fazendo cartões de Dia dos Pais e eu insistia que não tinha um pai. Ela não acreditava em mim.

Gabriela Herman — Tinha um menino que me pressionava no ensino médio… Ele me botou contra a parede no ônibus escolar. De alguma forma, ele descobriu que minha mãe era lésbica. “Sua mãe é lésbica?” Eu, tipo [gaguejando]... Esse é, tipo, meu pior inimigo no mundo inteiro. Ele era bem valentão, um menino horrível. Ele dizia “Sua mãe é lésbica? Eu ouvi dizer que ela é lésbica”. E eu respondia “Hm, ah… ah… não”. “Ah, se ela fosse lésbica”... Ele sabia que eu estava mentindo. Ele falava “Os anjos matam homossexuais. Isso é muito errado. Você vai pro inferno”. Eu retrucava “E se eu não acreditar em inferno?” Ele dizia “Então você vai pro inferno”. “Mas se eu não acredito nisso…” E aí a gente ficava nessa briga.

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Hope — Eu sabia que existiam outras estruturas familiares porque eu via as famílias dos meus amigos, minhas tias e tios, e eu sabia que as pessoas tinham algo chamado “mãe”, que eu não necessariamente tinha, mas eu não pensava que era tão minoria assim.

Meus pais gays eram muito envolvidos com as escolas que frequentei e conheciam os pais de todos os meus amigos. Eram amigos deles, iam a todas as reuniões e eventos. Eles provavelmente se afastariam e manteriam um “low profile” se eu não quisesse falar sobre a minha família, mas eles já eram assumidos para toda a comunidade escolar e eram amados por todos. Não havia de fato pessoas mexendo comigo por causa disso e os meus amigos eram supertranquilos. Às vezes, eles tinham algumas questões ou faziam comentários como “isso é tão gay” sem entender quão ofensivo e preconceituoso isso era. Mas ninguém realmente me incomodava sobre meus pais, ninguém fazia com que eu me sentisse envergonhada, ou com que eu me sentisse uma “outra”.

Certa vez, um dos meus amigos que estava falando sobre ter filhos estava muito ansioso para conversar comigo. Estou nessa idade agora em que amigos estão formando famílias, então eles me procuram mais para saber como era minha vida. Mas eles também têm perguntas do tipo: "Ei, eu tenho perguntas porque quero ser um pai/mãe queer." Você não é só parte de uma comunidade queer como também tem outra experiência.

Uma amiga estava perguntando como é crescer sem um sexo em casa ou sem uma figura materna, e se isso seria justo com uma criança. Eu já tinha ouvido isso antes e isso foi realmente difícil para mim. Imaginei minha família de nascimento, e minha mãe biológica em particular. Que tipo de pessoa ela era? Mas em termos do meu próprio desenvolvimento, eu não sinto que sofri por isso. Eu acho que tive outros modelos para seguir. Meus pais nunca fizeram com que eu me sentisse mal por querer ir além do ambiente doméstico à procura de mentores, pessoas para responder questões ou me apoiar. Eles nunca me fizeram sentir como se eu os tivesse traindo por fazer isso.

Eu cresci em torno de mulheres, em geral lésbicas, o que foi incrível. Existem diversos momentos em que você está tentando descobrir quem você é quando você é criança e, até hoje, com 28 anos, a figura da minha mãe ainda mexe comigo. Eu não penso que perdi a experiência de ter uma mãe, não acho que sou pior por isso. Eu acho que meus pais fizeram um trabalho fantástico por ajudarem a me criar como uma mulher forte. Mas, especificamente nessa parte confusa da minha origem, às vezes eu ainda me pergunto, e às vezes eu me importo a ponto de pensar em dedicar algum tempo para pesquisar sobre minha mãe. Depois, isso simplesmente perde importância.

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Dori — Minha mãe é lésbica. Eu fui concebida em um casamento heterossexual e meus pais se divorciaram quando eu tinha uns seis anos. Quando eu tinha oito, a parceira da minha mãe se mudou para minha casa. Elas tinham quartos separados. Não me explicaram quem era essa mulher e eu não sabia o que estava acontecendo. Eu sabia quem ela era, mas sempre me diziam que elas eram melhores amigas. Foi bem difícil pra mim elas não verbalizarem a situação.

Eu mantive contato com meu pai durante aquele tempo e o visitava nos finais de semana. Num desses finais de semana, ele simplesmente começou a me perguntar: “Por que você acha que ela mora com você? Por que você acha que nos divorciamos?” Eu sabia, mas não podia realmente me atrever a dizer. Eu não queria dizer. Isso foi na sexta ou sétima série, daí eu comecei a ouvir a palavra “gay”.

Então, no dia seguinte, quando eu estava em casa, a parceira dela entrou no meu quarto. Nós estávamos assistindo à TV e, na hora do comercial, ela simplesmente disse: “Como você se sente por sua mãe ser lésbica?” Eu respondi algo do tipo: “Tudo bem. Tudo bem.” Eu não queria falar sobre isso. Eu estava totalmente desconfortável. Estava desconfortável por ela estar conversando comigo sobre esse assunto e minha mãe não estar junto nessa conversa. Eu não sabia se minha mãe estava pedindo pra ela fazer isso por ela ou sei lá o quê. Eu simplesmente respondi: “Tudo bem, ela não quer se casar de novo. É o que tudo isso significa”. Eu só não queria aceitar de jeito nenhum, claro. Ela falou, tipo, “na verdade, significa um pouco mais que isso. Eu também sou lésbica”. É uma lembrança um pouco vaga agora, ela só estava tentando conversar sobre como era um casamento como outro qualquer. Ela falava sem parar e eu dizia apenas “OK”, e ia aguentando tudo aquilo, torcendo pra que ela parasse. Ela terminou a conversa dizendo: “Mas isso não é uma coisa pra você contar pro pessoal da escola”. Eu respondi que tudo bem. Sem problemas. O jeito como o assunto foi tratado o tempo todo me fazia sentir tanta vergonha. Reagia com um “ótimo, não quero conversar sobre isso mesmo”. Eu só sentia nojo o tempo inteiro.

Daquele dia em diante, até o colegial, era como se eu estivesse pisando em ovos. Eu segurava meu fôlego. Só recebia alguns amigos em casa quando era bem pequena porque eles não ficavam fazendo perguntas. Daí, eu não podia receber os amigos novos que fiz no colégio. Estava simplesmente tentando evitar qualquer pergunta, qualquer uma. Não queria que ninguém soubesse. Eu não sabia o que faria se alguém descobrisse. Eu não assumi minha família até estar na faculdade, a centenas de quilômetros.

Finalmente, eu disse: “Minha mãe é lésbica”. Daí, minha colega falou: “E então, o que aconteceu?” Eu respondi que “nada não, é só isso”. Acho que porque eu estava tão chateada, ela esperava que também contasse coisas muito horríveis. Pra mim, eu disse: “Não. Essa é a coisa horrível”. Eu esperava que ela me achasse nojenta e abjeta ou que não quisesse ficar perto de mim. Ela realmente não achou nada disso. Na verdade, ela falou: “Eu estou de boa quanto a isso. Está tudo bem”. Daí, eu comecei a me assumir aos poucos pras pessoas.

É engraçado. Depois da faculdade, quando começava a ficar com alguém, passei a falar sobre o assunto logo no primeiro encontro, ao invés de falar no quarto ou quinto, como fazia antes. Eu diria que o motivo pra eu amar tanto meu marido é que no nosso primeiro encontro, quando contei pra ele sobre minha família, ele não teve nenhuma reação. Era na época em que eu já pensava que “ninguém deveria manter isso em segredo. Ninguém nunca, nunca, nunca deveria ter que lidar com esses sentimentos de nojo porque não é assim”. São só as pressões da sociedade. Agora, isso simplesmente é uma parte considerável da minha identidade e de quem eu sou, uma parte bem grande. Na verdade, eu tenho muito, muito orgulho disso.

Finalmente, minha mãe seguiu meu exemplo e passou a falar sobre isso na frente de outras pessoas e a apresentar sua parceira como sua parceira e não apenas como uma amiga ou colega de quarto ou irmã. Era sempre uma coisa disfarçada. Agora, a gente conversa e está tudo bem. A gente está aprendendo o que é realmente ser um indivíduo e a ter uma coisa que é só sua. Eu sempre me senti como se me dissessem: “Isso é o que é, e você não pode tocar nesse assunto, ponto. Não pode ter nenhum sentimento, e nem pensar sobre o assunto, ponto final.”

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Aaron — Nasci em 1980, de um casal de lésbicas – duas mães. Elas me conceberam por meio de inseminação artificial de um doador anônimo. Quando eu tinha uns 24 anos, comecei a sair com ele pra passear de vez em quando. Eu penso nele como um pai em alguns aspectos, mas não em outros. Agora, eu não tenho aquela história de que sinto de alguma maneira o que a paternidade significa. Ao mesmo tempo, há mais ou menos três ou quatro anos, eu comecei a ajudar uma amiga minha a ter um bebê. Ela é lésbica, então eu doei esperma e agora nós temos um filho de dois anos. Eles aparecem aqui, acho que a cada dois meses, então também não é de fato um tipo convencional de paternidade naquele sentido tradicional. Daí, eu repensei um pouco a forma como eu entendo o termo “paternidade”.

Minhas mães se separaram quando eu tinha cerca de sete anos. Acho que porque minha mãe biológica se apaixonou por um homem e largou minha outra mãe pra ficar com esse cara, que era um sem-teto. Ela, na verdade, o conheceu quando morou em Nova Iorque. Ele ficou com minha mãe por dezoito, vinte anos, e ela se separou dele há uns cinco, seis anos.

Nós passamos por aquela coisa convencional de divórcio. Metade da semana, eu e meu irmão íamos pra uma casa e, na outra metade, íamos pra outra. Então, eu passava um tempo com as duas e me tornei próximo de ambas. Agora, depois de tantos anos, elas ainda são muito amigas. Elas saem juntas pra passear comigo ou com meu irmão. Ainda existe uma relação muito próxima e elas têm um relacionamento relativamente íntimo.

Eu sabia que a minha família era diferente, mas não era um diferente “estranho”, era só um tipo familiar diferente. Nós frequentamos uma escola primária onde, só na nossa sala, havia duas outras crianças filhas de mães lésbicas. Não era algo tão absurdo. Mas, quando eu fui estudar em uma escola pública, fiquei muito menos aberto com relação a isso. Eu tinha um tipo de convicção de nunca mentir, mas eu percebi muito rápido que as pessoas simplesmente pressupunham coisas e eu não tinha que corrigi-las sempre. E isso se mostrou ainda mais real quando eu fui praticar esportes. Era um ambiente em que havia, em geral, muito mais homofobia. Minha mãe ou meu padrasto poderiam me pegar no treino e dar carona pros meus colegas. As pessoas talvez reagissem dizendo: “Oh, essa é a mãe do Aaron, e a outra mãe do Aaron. E aquele é o padrasto dele”. De algum modo, na cabeça deles, aquilo se enquadrava como uma família heterossexual.

Estrategicamente, eu podia usar isso como uma forma de ganhar argumentos sobre certas coisas. Era sempre engraçado. Quando as pessoas eram contra o casamento gay ou contra a adoção gay, sei lá, eu as levava a um ponto em que elas diziam: “Eu só acho que seria superdifícil pras crianças. Quer dizer, você consegue imaginar como seria? Blá, blá, blá”. E eu respondia: “Ah, te peguei! Olha como eu vou te responder sobre isso”.

Minha geração era da primeira onda de pessoas nascidas com pais homossexuais. Minhas mães conheciam um menino que era mais velho que eu, mas era uma exceção. Eu fiquei pensando que deveria ser mais difícil. Acho que teve essa época esquisita nos anos oitenta em que o assunto não estava sequer no radar de muitas pessoas. De alguma forma, era mais fácil e ficou mais complicado quando se passou a falar sobre filhos de casais do mesmo sexo. As pessoas nem sabiam ainda que não gostavam disso. Daí, houve um retrocesso em algum momento e, depois, uma melhora. Quer dizer, mais e mais pessoas tiveram filhxs.

Eu acho que conversamos bastante (meu irmão e eu) sobre o que significa ter duas mães, visto que tanto eu quanto ele nos identificamos como heterossexuais. Conversamos sobre o que isso significa pra gente, o que significa não temos um modelo particularmente saudável, visto que minha mãe e meu padrasto não eram um bom modelo.

Nós não temos um roteiro de gênero normativo ou heteronormativo a seguir. O que fazemos nessa situação? Mas para nós, pensar nossas mães como algo além dessa forma idealizada de casal e tomar isso como um modelo de como nós deveríamos pensar nossos relacionamentos apresenta alguns problemas práticos, uma vez que nenhum de nós dois é uma mulher. Eu conversei com ele sobre abordar relacionamentos da maneira como as lésbicas fazem, mas fica um pouco confuso quando as mulheres meio que não estão exatamente a fim disso.

Além do trauma do divórcio, que eu já acho que é por si só um lance complicado, foi meio confuso sair dessa situação de ter um lar carinhoso de “mamãe-mamãe” pra então conviver com esse cara que tinha saído da cadeia e claramente não era como uma mãe.

Gabriela Herman é uma fotógrafa editorial e comercial especializada em viagens, comida, estilo de vida e retratos. Trabalha ao redor do mundo trazendo uma energia fresca e vibrante.